Uruguai libera para o Brasil parte de sua cota de carne bovina para a China

Medida foi anunciada por Lula após encontro com o presidente uruguaio Yamandú Orsi; excedente não usado poderá ser atendido por empresas brasileiras

Tempo de leitura: 3 minutos

| Publicado em 22/09/2026 por:

Economista | Analista de Mercado

O Uruguai autorizou o Brasil a utilizar o excedente de sua cota de exportação de carne bovina para a China em 2026, disse, na segunda-feira (21/9), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em postagem no X. A medida foi anunciada após encontro com o presidente uruguaio, Yamandú Orsi, em Nova York, onde os dois participarão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, nesta terça-feira (22/9). A redistribuição da cota, no entanto, não foi confirmada oficialmente pelos chineses.

“Tratamos de temas da agenda bilateral, em especial infraestrutura e comércio agrícola. Agradeci a autorização concedida ao Brasil para uso do excedente da cota uruguaia de exportação de carne bovina para a China”, escreveu Lula.

O tema estava em discussão havia meses. Como revelou a reportagem do Valor em julho, o Ministério da Agricultura brasileiro propôs ao governo do Uruguai uma “troca” de cotas para que o Brasil pudesse vender mais à China. A negociação original envolvia o repasse, pelo Brasil, da sua parcela da cota do Mercosul de exportação de carne bovina resfriada à União Europeia com tarifa reduzida, já que esse mercado está temporariamente fechado por falta de comprovação no controle de uso de antimicrobianos. Em troca, o Uruguai concederia o volume não ocupado na cota chinesa.

Não há confirmação se os termos acertados pelos dois governos envolvem a troca de cotas. Uma fonte uruguaia disse que há “boas intenções” entre o Brasil e Uruguai, mas ressaltou que o assunto precisa ser aceito pela China.

A cota do Uruguai para exportação de carne bovina para a China sem tarifa extra em 2026 é de 324 mil toneladas. Segundo fontes, cerca de 80 mil toneladas poderiam ser repassadas ao Brasil, ou cerca de um mês de embarques brasileiros para os chineses. Há dúvidas no mercado sobre a validade da concessão de excedentes de cotas entre fornecedores. A gestão dos volumes autorizados é feita pela China.

Indústria vê impacto limitado de aproveitamento de cota

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) disse que qualquer iniciativa para aumentar o acesso ao mercado chinês é positiva, mas indicou que o eventual aproveitamento do volume não ocupado pelos uruguaios teria “efeito limitado” em 2026 por conta do tempo necessário para negociação, embarque e trânsito da mercadoria até a China. Se a redistribuição for feita em 2027, o efeito seria benéfico, já que a perspectiva é que a cota se esgote ainda mais cedo no ano que vem, provavelmente em abril.

“Para 2027, a medida pode representar uma alternativa importante, especialmente diante da cota brasileira de 1,128 milhão de toneladas e do risco de seu esgotamento já nos primeiros meses do ano, caso se mantenha o atual ritmo de vendas. A Abiec vem defendendo previsibilidade e mecanismos que permitam distribuir melhor os embarques ao longo do ano, preservando o fluxo comercial com o principal destino da carne bovina brasileira”, disse, em nota.

O governo brasileiro não divulgou detalhes da negociação nem como a medida será implementada. A avaliação entre lideranças do setor, analistas de mercado e membros da Esplanada dos Ministérios é a de que a concretização do acordo entre Brasil e Uruguai depende do aval oficial da China. No início do ano, Pequim negou pedido brasileiro para a redistribuição de cotas não utilizadas por outros fornecedores.

“Se a China decidir que essa cota é intransferível, o Brasil não vai ter acesso à cota do Uruguai, da Argentina, dos Estados Unidos, da Nova Zelândia. Depende da posição chinesa. Esse é o ponto central, se não tiver o aceite chinês não vai mudar a dinâmica de exportação chinesa”, disse Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado.

Procurados, os ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) não se posicionaram.

Fonte graduada em Brasília ressaltou que o anúncio foi fruto de uma conversa entre presidentes, mas que ainda não há nada oficializado. O Itamaraty disse que o tema deve ser respondido pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República, que não retornou até o fechamento desta edição.

A indústria de carne bovina brasileira tentou convencer o governo a adotar um mecanismo de divisão da cota neste ano, sem sucesso. A gestão dos volumes autorizados é feita pelo Ministério do Comércio da China (Mofcom, na sigla em inglês), no âmbito da salvaguarda chinesa de proteção à indústria de carne bovina local, o que impediria o controle pelo país exportador. Houve receio em Brasília de que alguma medida nesse sentido pudesse ser encarada como interferência na livre concorrência.

Os embarques brasileiros já ultrapassaram a cota estabelecida para 2026, de 1,106 milhão de toneladas. Dados compilados pela Safras & Mercado mostram que entraram nos portos chineses 1,144 milhão de toneladas até agosto. O Uruguai, por sua vez, preencheu pouco mais de 30% do volume autorizado para o ano e ainda pode vender mais de 200 mil toneladas para a China até dezembro.

Globo Rural

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