Fertilizantes: Entre ajustes pontuais e vetores estruturais, insumos mantêm viés de sustentação no cenário internacional

Compras mais significativas na Índia, demanda mais intensa dos EUA, restrições da União Europeia à amônia russa e oferta enxuta de fosfatados por parte da China moldam preços no exterior. No Brasil, relação de troca melhora em relação ao mês anterior, apesar da elevação dos custos com os fertilizantes. No comparativo anual, houve uma piora para os produtores.

Tempo de leitura: 4 minutos

| Publicado em 18/02/2026 por:

Economista | Analista de Mercado

O mercado internacional de fertilizantes registrou ao longo da última semana um comportamento heterogêneo nas cotações da Bolsa de Chicago (CBOT). Em 13 de fevereiro, a Ureia no Golfo dos Estados Unidos, com contrato para fevereiro, foi negociada a US$ 457,50 por tonelada FOB, registrando valorização semanal de 0,6%. A Ureia no Oriente Médio, com o mesmo vencimento, ficou estável no comparativo semanal, sendo precificada a US$ 485 por tonelada FOB. Já o Fosfato Diamônico (DAP), negociado no porto de Nova Orleans, nos Estados Unidos, registrou decréscimo de 0,3% ante a semana passada, com o contrato de fevereiro cotado a US$ 628 por tonelada FOB.

No mercado de importação brasileira, as cotações da ureia entregue ao país, com vencimento em fevereiro, foram negociadas a US$ 472,00 por tonelada CFR, retração de 0,5% em relação à semana anterior. O Fosfato Monoamônico (MAP), por sua vez, obteve um movimento de incremento, em 2,9% na semana, no contrato com vencimento para junho sendo negociado a US$ 720,00 por tonelada CFR.

No segmento de nitrogenados, as cotações da ureia seguem ancoradas em expectativas de demanda aquecida nos Estados Unidos, que forma estoques para o início do seu calendário de plantio, além da possibilidade de nova licitação indiana, fator potencialmente altista para o balanço global. A Rashtriya Chemicals and Fertilizers (RCF) anunciou a abertura de uma rodada adicional para aquisição de 1,5 milhão de toneladas do insumo.

O movimento ocorre após a compra anterior ter ficado aquém do volume inicialmente projetado, preservando a necessidade de recomposição de estoques e mantendo o país ativo no mercado internacional ao longo de fevereiro. As propostas permanecem válidas até o final do mês, com embarques previstos até o término de março. Dessa forma, o calendário indiano permanece como vetor determinante para a formação dos preços no curto prazo.

A atuação da Índia confere suporte às referências globais, especialmente em um ambiente de oferta relativamente ajustada. O desfecho dessa nova rodada tende a balizar o direcionamento das cotações nos próximos meses, seja consolidando o atual nível de sustentação, seja permitindo acomodações, caso a disponibilidade internacional se mostre mais ampla que o antecipado.

Na Europa, a União Europeia avalia implementar cotas para restringir a entrada de amônia russa no bloco, medida integrante de seu 20º pacote de sanções. A iniciativa, apresentada pela Comissão Europeia, busca reduzir a dependência do insumo oriundo da Rússia, ao mesmo tempo em que procura resguardar a estabilidade do abastecimento regional.

A amônia constitui matéria-prima estratégica para a produção de nitrogenados, como ureia e nitrato de amônio, amplamente utilizados na agricultura europeia. Apesar das sucessivas sanções, parcela relevante das matérias-primas consumidas pela indústria do bloco ainda tem origem russa, evidenciando a relevância estrutural desse fluxo comercial.

A eventual adoção de cotas poderá alterar a configuração do suprimento no continente, exigindo diversificação de fornecedores e possivelmente elevando os custos de aquisição. Produtores europeus tendem a intensificar contratos com origens alternativas, enquanto importadores deverão readequar estratégias logísticas e comerciais para assegurar regularidade no fornecimento.

Em relação aos fosfatados, a sustentação das altas decorre de um cenário global mais restritivo. A limitação da disponibilidade internacional reduz a probabilidade de ajustes baixistas e mantém os preços em trajetória ascendente. Esse quadro é fortemente influenciado pela menor presença da China no mercado exportador, diante da priorização do consumo doméstico e dos impactos sazonais associados ao feriado lunar. Adicionalmente, a maior demanda estadunidense, já citada anteriormente, também contribui como fator altista.

A recente valorização do gás natural, insumo estratégico para a síntese de ureia, reforça o pano de fundo altista observado no mercado de nitrogenados. Nos Estados Unidos, as temperaturas excepcionalmente baixas e as intensas nevascas registradas em janeiro impulsionaram a demanda por aquecimento, provocando avanço expressivo nos contratos futuros de gás natural. O encarecimento do insumo energético, nesse contexto, repercutiu diretamente sobre a estrutura de custos da indústria de fertilizantes.

Entretanto, com a transição para o período pós-inverno no Hemisfério Norte, a tendência aponta para acomodação gradual dos preços do gás, aliviando a pressão sobre os custos de produção dos nitrogenados.

Por sua vez, o mercado de potássicos permanece em compasso de estabilidade, com variações pouco expressivas nas cotações, sinalizando equilíbrio momentâneo entre oferta e demanda. O contraste é evidente frente aos nitrogenados e fosfatados, cujos fundamentos seguem mais tensionados.

No Brasil, a dinâmica doméstica tende a permanecer condicionada a esses vetores externos, com repercussões diretas sobre margens, ritmo de internalização e estratégias de posicionamento ao longo do primeiro semestre.

O Índice de Poder de Compra de Fertilizantes (IPCF) no país encerrou janeiro em 1,2, recuo aproximado de 9% frente ao mês anterior. Ainda assim, o indicador permaneceu acima do registrado em igual período do ano passado, quando atingia 1,09.

No mês, as commodities agrícolas avançaram, em média, 1,5%, com destaque para milho (+2%), algodão (+2,5%) e açúcar e etanol (+3,5%). Apesar da retração próxima a 2% na soja, o conjunto dos preços agrícolas manteve viés positivo. Já os fertilizantes apresentaram elevação média de aproximadamente 5% no período. A apreciação do real frente ao dólar também contribuiu para o resultado observado.

Divulgado mensalmente pela Mosaic, o IPCF corresponde à relação entre indicadores de preços de fertilizantes e de commodities agrícolas, tomando como base o ano de 2017. Quanto menor o índice, mais favorável a relação de troca ao produtor. O cálculo contempla as principais culturas brasileiras (soja, milho, açúcar, etanol e algodão) oferecendo um termômetro relevante para a análise do poder de compra no setor.

Na tabela abaixo estão os preços médios dos principais fertilizantes nas regiões monitoradas:

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