Rio Grande do Sul enfrenta a estiagem mais severa em 4 anos

Perdas repercutem em todos os setores do agro gaúcho

Tempo de leitura: 3 minutos

| Publicado em 24/01/2023 por:

Engenheira Agrônoma | Analista de Mercado

O Rio Grande do Sul enfrenta novamente uma estiagem nesta safra. São registradas perdas em milho sequeiro, falta de água para os animais e abastecimento de pessoas, baixas no leite e já se notam os primeiros impactos na soja. A situação varia bastante entre as regiões do estado. Na região central e no noroeste gaúcho, produtores mostram que a condição não está fácil para a lida no campo.

Na propriedade da família Ceolin, em Tupanciretã, na região central do estado, a imagem da lavoura de cima parece indicar que a palha secando é colheita próxima, mas não é bem assim. No local, estão plantados 167 hectares que renderam espigas pequenas e mal-formadas.

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“A gente voltou a plantar tem uns cinco anos e já colhemos bem o milho nessas condições, a gente só planta sequeiro”, diz a produtora rural Graciane Ceolin. “No ano passado, já perdemos com a estiagem, mas neste ano está ainda pior”, prossegue a agricultora.

Em alguns casos, as lavouras ficaram sem chuva bem na fase mais crítica, que é quando o milho começa o pendoamento e a colocar as espigas. Com isso, todo um plantio é perdido. É palha seca que não serve nem para a alimentação animal. E os dias em determinados pontos do Rio Grande do Sul têm sido assim: quentes e com bastante vento, o que agrava ainda mais a situação da estiagem.

Exemplos do impacto da estiagem no RS

Muitos meses com o mesmo cenário. No município de Tupanciretã deveria ter chovido uma média de 172 milímetros por mês desde agosto de 2022. A média, contudo, ficou em somente 55 milímetros. Isso fez Eglênio Basso, que nasceu na agropecuária, ter que cortar a silagem mais cedo. “Além da qualidade ser baixa, o volume foi muito baixo. Eu era acostumado a colher 23 toneladas por hectare e hoje deu duas ou três toneladas por hectare”, lamenta o produtor.

Na propriedade de Eglênio, a renda vem das vacas leiteiras. E além da alimentação, outro problema está na água para os animais. Um açude já foi isolado porque só tem lodo e os outros três estão com nível baixo. Para a produção compensar, o produtor precisaria vender o leite a no mínimo R$ 2,80. Hoje, no entanto, o litro sai da fazenda por pouco mais de R$ 2,00.

“Os animais estão muito deficientes, magros e aí temos que suplementar com bastante ração, feno, silagem de baixa qualidade”, diz o produtor rural. “Desanima”, admite Eglênio.

A situação de Tupanciretã

Tupanciretã foi o primeiro município gaúcho a decretar emergência por causa da estiagem desta temporada. E o número de cidades que seguiram o mesmo caminho cresce a cada dia. Com os decretos, as administrações locais podem tomar medidas emergenciais para tentar amenizar as perdas. Além disso, produtores podem acionar o seguro.

“Nós já temos uma perda aproximada de R$ 200 milhões” — Gustavo Herter Terra.

“O nosso inverno foi seco. A primavera foi seca e, agora, nós estamos entrando em um verão seco”, diz o prefeito de Tupanciretã, Gustavo Herter Terra (PP). “No ano passado, a estiagem começou em janeiro, quando não tínhamos perdas e depois colecionamos uma perda de aproximadamente R$ 1 bilhão em commodities no município”, prossegue o político. “Hoje, na mesma data do início da estiagem do ano passado, nós já temos uma perda aproximada de R$ 200 milhões”, observa o prefeito.

Problema também em Júlio de Castilhos

Em Júlio de Castilhos, o gado do Moacir da Silva busca água no açude, que já está pela metade. As vacas não querem comer pasto seco, mas o sorgo forrageiro nem nasceu. “Já estamos 40 dias mais ou menos sem uma chuva boa. Choveu 5, 7 milímetros, mas isso ajuda muito pouco. Assim, ficamos naquela expectativa de vir chuva e não vem, no dia a dia vai secando mais e da agonia sempre bate.”

Ainda em Júlio de Castilhos, em uma propriedade, a soja foi plantada no final de novembro e replantada em janeiro. Deveria estar com 25 centímetros, fechando as linhas. Mas o que se vê são plantas pequenas, murchas e sofrendo com o sol. Mas ainda há esperança: se vier uma chuva nos próximos dias, a lavoura pode se recuperar.

Mapeamento das perdas com a estiagem

O cenário na soja é bem desigual no Rio Grande do Sul. Na terra, sementes que mofaram e não nasceram e raízes sem vigor. Poucos metros separaram, por exemplo, lavouras bem secas de outras com bom desenvolvimento. A Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-RS) projeta as perdas entre 30 e 70% no milho. Além disso, há casos de 25% na soja.

“O grande produtor consegue remanejar as contas, negociar, tem poder de negociação melhor. Não que ele não tenha, obviamente, problemas, mas o pequeno produtor, muitas vezes, acaba tendo que abandonar a atividade”, diz Fabiano Santos, engenheiro agrônomo da Emater-RS em Júlio de Castilhos.

O Rio Grande do Sul esperava recuperar as perdas da safra de verão passada. Por enquanto, entretanto, amarga as mesmas cenas já conhecidas. Mas a cada dia que o sol se põe, a esperança é de dias melhores e de tentar de novo.

Canal Rural

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