Ferrovias: expansão da malha deve ampliar a competitividade para Mato Grosso

Expectativa do setor produtivo é que as ferrovias no estado gerem uma redução de custos quanto ao frete, principalmente

Tempo de leitura: 5 minutos

| Publicado em 03/11/2023 por:

Engenheira Agrônoma | Analista de Mercado

O investimento na ampliação da malha ferroviária brasileira é uma demanda antiga e constante do setor produtivo. Em Mato Grosso, onde os trens percorrem apenas 366 quilômetros atualmente, a expectativa para o futuro é promissora. O estado pode ganhar mais duas ferrovias, além da ampliação da existente. Entre os benefícios, a redução dos custos, o ganho em eficiência e a maior competitividade.

Considerada uma fronteira agrícola em Mato Grosso, a região nordeste do estado vive um momento de avanço na produção. O clima favorável e a ampla oferta de terras disponíveis são os principais atrativos para a expansão da agricultura sobre áreas de pastagens degradadas no Vale do Araguaia.

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Um dos municípios em franca expansão agrícola é Água Boa. O produtor Antônio Fernandes de Mello conta que se não fosse o cenário atual da agricultura, a área destinada para a soja na safra 2023/24 no município teria ampliação.

“Nesta safra 2023/24 se não fosse o cenário atual, nós já teríamos uma ampliação grande de áreas de lavouras aqui. E, sem derrubar nenhuma árvore. Só transformando a pastagem em lavoura. Nós temos muitas áreas ainda que estão no mercado de arrendamento ou do próprio pecuarista, que está virando para lavoura”.

Antônio Fernandes comenta ainda que em Água Boa existem pouco mais de 210 mil hectares de lavoura hoje, mas que pode chegar “tranquilo” a 250 mil, 280 mil hectares.

Salto produtivo e transtornos na logística

Considerado positivo para a região, diante da diversidade de produção, o salto produtivo, no entanto, não foi acompanhado pela infraestrutura de logística. O reflexo disso é direto: transtornos e custos elevados.

“Temos apenas uma via de escoamento, que é a BR-158. Todo ano a gente passa por um desafio para conseguir acomodar em um período curtinho que é a nossa safra e o problema continua. Tivemos muito incremento de áreas nos últimos três anos e a produção passa a ser maior. Isso causa um aumento de custo de frete e, pior do que isso, ainda há a hipótese de você ter um colapso, porque estamos falando de uma rodovia onde problemas podem acontecer, por exemplo arrancar uma onde, e nós não temos uma alternativa”, pontua o agricultor Euclásio Garruti Júnior.

Para o presidente do Sindicato Rural de Canarana, Alex Wish, a liberação do Arco Norte para o escoamento da produção, bem como receber mercadoria, é fundamental.

“Nós mesmos chegamos a comprar potássio que veio por ali. Para nós é muito mais perto fazer esses 1,5 mil quilômetros, por exemplo, até Barcarena, do que descer para Santos, Rio Grande, Paranaguá. Então, a gente vai economizando muito frete marítimo. Para nós é um sonho. A gente consegue baratear um pouco o insumo e consegue ganhar na soja. Não é muito. Mas, pelo menos uns R$ 5, R$ 10 por saca de soja, que no final ajuda muito”.

Novo PAC prevê obras em ferrovias

A esperança na região no que tange a infraestrutura de logística se renovaram diante do anúncio do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), em agosto. Além da pavimentação da BR-158, o programa prevê também recursos para levar os trilhos para a região.

A malha ferroviária faz pare de um projeto estratégico para o país. A Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico) integra ele, ligando a Ferrovia Norte-Sul, em Mara Rosa (GO), até Vilhena (RO). Ao todo, a Fico terá 1.641 quilômetros de extensão. O trecho previsto no PAC vai até Água Boa. O investimento inicial estimado é de R$ 2,83 bilhões e as obras já começaram.

De acordo com o diretor-executivo do Movimento Pró-logística, Edeon Vaz, o trecho da Fico que vai de Mara Rosa até Água Boa já conta com cerca de 50 quilômetros de terraplanagem realizado e os trilhos já foram importados.

“A obra está andando. Estão sendo feitas as desapropriações do trecho por onde vai passar a ferrovia. Eu tenho recebido várias demandas dizendo ‘Onde é que passa a ferrovia?’. Mas, isso não é divulgado, porque evita-se especulação imobiliária. Então, não tem como a gente saber. Mas, é uma obra que está em andamento, eu tenho acompanhado e está dentro do cronograma”.

Terminal da Fico em Água Boa

O terminal ferroviário da Fico em Água Boa já possui o seu local escolhido. A previsão é que em cinco anos a estrada de ferro esteja pronta e operando. A estimativa é movimentar aproximadamente 25 milhões de toneladas de produtos por ano no trajeto.

Segundo o agricultor Antônio Fernandes Mello, já há empresas sondado a região para a implantação de filiais, com olho na ferrovia. “Onde há concorrência há um mercado saudável. Um mercado saudável para ambos os lados”.

Vinicius Baldo é produtor em Água Boa e planta sete mil hectares. A propriedade dele fica próxima ao futuro terminal ferroviário. Ele frisa que o novo modal, além de agilizar o escoamento, irá ajudar a aliviar o bolso na hora de transportar a safra.

Trilhos trazem mais competitividade

Atualmente, a única ferrovia em Mato Grosso é a Ferronorte, que liga Rondonópolis ao Porto de Santos. Em 2022, o governo de Mato Grosso iniciou as obras da Ferrovia de Integração Estadual, a primeira ferrovia estadual do país.

Serão dois ramais levando os trilhos. Um de Rondonópolis até Cuiabá e outro de Rondonópolis até Lucas do Rio Verde, no eixo da BR-163.

Além disso, o maior estado produtor de grãos do país deve receber ainda uma terceira ferrovia, que ligará a região médio-norte ao Porto de Miritituba, no Pará: a Ferrogrão.

A Ferrogrão também foi lembrada no Novo PAC e é, conforme o diretor-executivo do Movimento Pró-logística, Edeon Vaz, uma ferrovia fundamental para o estado e para o Brasil, pois cada comboio terá 160 vagões impulsionados por três locomotivas.

“Essas três locomotivas têm dois motores ou quatro motores em cada locomotiva. Então, nós temos aí um comboio de 16 mil toneladas. Cada vagão é 100 toneladas, que substitui 400 caminhões, com média de 40 toneladas. Ela é, de todas as formas, positiva. Ela é positiva na questão do meio ambiente. Ela é positiva na questão econômica, porque ela vai reduzir o frete. Ela é positiva socialmente porque gera empregos”, diz Edeon Vaz.

O diretor-executivo do Movimento Pró-logística destaca ainda que a ampliação da malha ferroviária brasileira é fundamental para tornar a produção do país mais competitiva mundo afora. Diversificar os modais de transporte, ressalta ele, significa redução de custos e aumento de eficiência.

“São 32 mil quilômetros de estrada de ferro no Brasil, mas só usamos 12,5 mil. Os Estados Unidos possuem 220 mil quilômetros de ferrovia e a Argentina tem 25 mil quilômetros. Um “paisinho” daquele tamanho, tem muito mais ferrovia do que nós e tem algumas ferrovias que estão sendo trabalhadas para reabilitá-las”.

Edeon Vaz lembra que o americano gasta cerca de US$ 82 a US$ 85 para enviar uma tonelada de soja em Xangai e a Argentina em torno de US$ 95.

“O Brasil na melhor performance que tivemos foi o ano passado, que chegamos a US$ 123. Então, o que nós temos que fazer? Nós temos que aumentar o número de ferrovias. Nós temos que explorar melhor nossas hidrovias e melhorar as nossas rodovias. Fazendo todo esse conjunto, a gente consegue baixar o custo a nível geral e vamos ser ainda mais competitivos com os americanos e os argentinos”.

A inclusão das ferrovias no Novo PAC, explica o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, tem como intuito proporcionar mais competitividade para a produção agropecuária brasileira.

“São todas estruturantes e que vão dar competitividade à esse aumento da safra brasileira, que está previsto para os próximos anos. Tenho certeza que as obras começam a andar com determinação do governo, com recurso garantido e as licenças também há estão ficando prontas”.

Vice-presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Lucas Costa Beber, afirma que a prova do quanto as melhorias em infraestrutura de logística são importantes para a produção mato-grossense é a conclusão da BR-163, ligado o estado a Miritituba.

“Mato Grosso deu um salto de 9,6 milhões de hectares na safra 2018 para 12 milhões na última safra. Isso na sua grande parte só na conversão de pastagem para a lavoura. Então, sem dúvida nenhuma, o Mato Grosso é um gigante. Tem um potencial enorme de oferecer produção de alimentos para o mundo somente convertendo pastagem em lavoura, mas para isso precisa ter viabilidade financeira, onde se melhora o preço do produto, e a gente sabe o que diminui esse preço é a distância logística e a qualidade logística. É importante sim que venha novas rodovias, e novas ferrovias para Mato Grosso crescerem mais e os nossos produtores melhorarem também as suas condições de vida”.

Canal Rural

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