Ponto de Vista: presidente da Aprosoja Brasil fala sobre atual conjuntura de mercado e cita ações da entidade para o fortalecimento da sojicultura brasileira

  • 10/10/2019
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  • Categoria(s): Mercado de Soja |

Aprosoja Brasil

Principal grão do Brasil, a soja já rendeu ao país o status de maior exportador da oleaginosa. Em partes, substancialmente, graças ao apetite dos chineses, que em pleno conflito tarifário com os EUA, aumentaram as compras em 30% mais do Brasil, movimentando 68,8 milhões de toneladas.   Agora, o Brasil, está no caminho de conquistar  o título de maior produtor mundial, desbancando os 112,9 milhões de toneladas dos Estados Unidos,  segundo projeções do próprio Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).  É que estimativas oficiais dão conta que o “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”, como retratado na canção, deverá superar a casa das 120 milhões de toneladas e bater o recorde histórico de 2017/2018 (119 milhões de toneladas), em uma área plantada de 36,5 milhões de hectares, segundo o primeiro levantamento  para a nova temporada, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Sob o “Ponto de Vista” da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), o presidente da entidade, Bartolomeu Braz Pereira, em entrevista exclusiva à equipe AFNews, fala sobre o mercado da soja, e explica algumas relevantes ações que contribuem com o fortalecimento e engajamento de todos os sojicultores brasileiros. 

AFNews -  Em agosto, produtores de soja do Brasil, Argentina e Paraguai estiveram reunidos em Buenos Aires, para iniciar diálogos sobre temas de interesse do setor e compartilhar decisões que envolvam os sojicultores dos três principais países produtores de soja da América do Sul. Qual foi o tom dialogado e que decisões foram essas?

Aprosoja Brasil - O tom da conversa foi de cooperação, de compartilhar experiências a fim de superar desafios da produção nesses países, cada um com as suas características específicas. Atualmente, os sojicultores do bloco são responsáveis por 52% da produção mundial e por 63% das exportações de soja globais. Por este motivo, esses países juntos formam o maior bloco produtor e exportador da oleaginosa. Acrescenta-se a estes países produtores da Bolívia e Uruguai, ainda em que estes últimos em menor quantidade.

Estamos tentando buscar uma união de produtores no Cone Sul para melhorar nossas negociações com os compradores. A Argentina tem dificuldades na política interna devido às “retenciones”, a política tributária criada durante o governo passado. Aqui no Brasil trabalhamos com mercado livre, intensificada pela política liberal do governo atual.

Trabalhamos juntos para ficarmos mais fortes e conseguirmos ter referência de preço, diferente do que faz a Bolsa de Chicago. Poderíamos estar avançando mais. Já existe um grupo trabalhando nisso entre as entidades do setor agrícola e entre os embaixadores desses países para construirmos uma boa relação entre nós.

AFNews -  Sobre o uso do glifosato e outros herbicidas nas lavouras, qual é o posicionamento da Aprosoja Brasil? Recentemente houve até um episódio em que várias entidades emitiram nota de repúdio contra um programa de humor da TV, que satirizou de forma equivocada o uso dos agroquímicos pelos agricultores, prestando um desserviço de informação sobre a realidade no campo ao colocar  em xeque a segurança dos alimentos. Qual é a postura adotada pela Aprosoja Brasil em relação a esse tema?

Aprosoja Brasil - O glifosato é utilizado no país desde a década de 1970, principalmente no plantio direto e para dessecar a pastagem antes do plantio. No Brasil, cada vez usamos menos defensivos por hectare. Isso é um fato, basta ver a queda de faturamento do setor de defensivos. Isso ocorre porque estamos usando transgênicos e produtos biológicos.

Há muitas tentativas de setores de barrar a utilização deste herbicida . Neste ano a Anvisa realizou uma consulta pública para colher informações sobre a utilização do glifosato na agricultura. Para contribuir com esclarecimentos sobre o tema, elaboramos um manual com orientações aos produtores sobre como contribuir com informações técnicas sobre a correta utilização desse produto na agricultura.

Estados Unidos, Austrália e até a Organização Mundial de Saúde (OMS) já atestaram que ele não é cancerígeno e não tem risco para seres humanos e meio ambiente.

AFNews - Qual é o conteúdo da Carta de Palmas, apresentado pela Aprosoja Br no Congresso da Abag deste ano?

Aprosoja Brasil - O Carta de Palmas é um documento em que a Aprosoja Brasil e suas 16 associadas estaduais reafirmam a sustentabilidade da soja brasileira perante sociedade, governos e empresas do Brasil e do exterior. O documento foi elaborado após a realização do seminário Soja Responsável, promovido pela Aprosoja Brasil e Aprosoja Tocantins que reuniu, em Palmas (TO), em julho desse ano, produtores da região do cerrado brasileiro, especialmente do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).

A Carta de Palmas é uma resposta à Declaração de Roterdã, bem como declaração da empresa Cargill, que investirá US$ 30 milhões para evitar o desmatamento do bioma Cerrado na região do MATOPIBA.

A partir das informações agregadas pela Embrapa Territorial durante o evento, evidenciou-se que aproximadamente 30% do MATOPIBA são destinados à preservação da vegetação nativa dentro das propriedades rurais. Somado a isso, cerca de 10% dessa área são protegidos por lei por meio de Unidades de Conservação e Terras indígenas. Significa que 40% deste território já estão, de alguma forma, protegidos ou preservados pelas leis e pelo código florestal brasileiro.

AFNews -  O ano atípico de 2019 para o setor agropecuário norte-americano tem virado a chave para o setor do agronegócio brasileiro sob que perspectivas?

Aprosoja Brasil - As perdas estão acontecendo nesta safra, cuja a colheita está iniciando agora, nos Estados Unidos. Houve um excesso de chuvas no início e muitas áreas não conseguiram ser plantadas e outras foram plantadas fora da janela, o que acarretou em baixa produtividade e soja com baixa tecnologia. Enfim, isso tem trazido algumas oportunidades aos produtores brasileiros. A própria guerra comercial, o ‘vai e vem’ também ajuda nessa oferta maior para o Brasil.

Os produtores têm de estar atentos a esses momentos, mesmo não tendo a reação esperada para cobrir os custos de produção, porque os nossos custos são atrelados ao dólar. Então, muitas vezes, o produtor até se engana, achando que está vendendo soja com valor maior alto devido ao dólar, mas na verdade seu custo também tem subido.

Os produtores buscam essa oportunidade no melhor momento, quando dá pico na Bolsa de Chicago em dólar, para travar os custos operacionais, que são em real. Isso ajuda a melhorar um pouco sua possível venda.

A gente tem que levar em conta o custo da região de cada produtor, buscar uma melhor oportunidade e fechar aos poucos a produção, até para garantir parte dos custos ou custo integral. Para depois chegar numa supersafra, como está programada para o Brasil.

A demanda este ano caiu devido à situação da Peste Suína Africana na China. Haverá mudança na matriz energética lá para outras cadeias como frango, peixe, ovos, e outros. Pode-se ter uma grande safra de soja e os preços podem achatar na próxima colheita.

AFNews -  Na Abertura Nacional do Plantio da Soja – Safra 2019/2020, em Rondônia, “Sustentabilidade e análise política do atual momento para o Agronegócio” foi tema de sua palestra, pode fazer uma resenha de como foi esse debate com a participação do público?

Aprosoja Brasil – A Abertura Nacional do Plantio de Soja, realizada em Rondônia, foi uma ocasião muito importante para debatermos essa questão produção sustentável da soja no Brasil, principalmente pelo momento que estivemos vivendo recentemente, de o Brasil ser atacado por setores da comunidade internacional que não conhecem a realidade da nossa produção.

Eu conheço a produção dos cinco continentes. E não conheço uma produção mais sustentável que a do Brasil. Não existe lugar no mundo com Reserva Legal e com APP. E nós tivemos a coragem de colocar isso dentro das propriedades rurais, reserva legal para o mundo inteiro. A Europa não tem percentuais de vegetação preservada como nós temos no Brasil. E mesmo assim nós somos competitivos e arcamos com o ônus da preservação dentro das fazendas para o bem da humanidade.

AFNews -  Qual a importância do sojicultor em seguir à risca o calendário do vazio sanitário?

Aprosoja Brasil - É de extrema importância seguir o calendário do vazio sanitário, tendo em vista a segurança fitossanitária da cultura da soja dentro país, já que esse tipo de ação visa diminuir a existência de inóculo do agente causador da Ferrugem Asiática (Phakopsora pachyrhizi) - a principal doença da soja no Brasil. Por se tratar de um agente biotrófico, o fungo Phakopsora pachyrhizi necessita da planta de soja viva, com suas atividades biológicas ativas a fim de se reproduzir e gerar novos esporos para proliferação da espécie. O vazio busca eliminar a soja do campo inviabilizando a existência do fungo, já que este somente se prolifera na cultura da soja. Dessa forma, o vazio sanitário contribui para que tenhamos o cultivo da soja com menores impactos da doença da ferrugem asiática da soja, sendo essa capaz de atribuir perdas de até R$ 6 bilhões para a economia brasileira.

AFNews -  Sobre o ritmo das exportações de soja, o principal produto exportado pelo Brasil para China, o arrefecimento no crescimento do PIB chinês significa possibilidade menor de expansão nos negócios, qual avaliação da entidade?

Aprosoja Brasil - É lógico que a gente tem se preocupado com a diminuição do crescimento da China, é natural. Hoje já se tem uma grande parte da população consumindo muita soja.  O mundo já deu como direito garantido o consumo de proteínas vindo da soja, de carnes, enfim...  O mercado que atendemos hoje é suficiente. Lógico que com esse crescimento de consumo a gente acaba exportando mais.

Quando a população chinesa melhora a renda, o primeiro item que também melhora é a alimentação. A China cresce muito, há muitos anos apresenta crescimento alto. É natural que se chegue a patamares mais altos, isto porque a população vai passando para outras fases. A classe média passa para a alta, e assim sucessivamente. A gente se preocupa, mas não é tão alarmante quanto se pensa, porque existe um mercado consolidado, mas sempre fica uma lanterna amarela acesa.

AFNews - Recentemente, a China anunciou que vai excluir alguns produtos agrícolas dos Estados Unidos da cobrança de tarifas adicionais, entre eles, soja e carne suína, na tentativa de amenizar os conflitos comerciais da guerra tarifária entre as duas maiores economias do mundo. Qual o reflexo disso para os preços no Brasil?

Aprosoja Brasil - Esse acordo, essa guerra comercial, uma hora ou outra isso vai diminuir, até porque a soja só tem no Brasil, Estados Unidos, na Argentina e outros países pequenos, como o Paraguai e um pouco na China. Não é saudável para nós essa guerra. A guerra deixa essa mercadoria parada e onde ela para que é o mais complicado, porque ela trava onde é nossa referência: a Bolsa de Chicago. Isso reflete muito nos preços.

No ano passado o Brasil vendeu um recorde de exportações para a China mas, se formos analisar, nos últimos dez anos foi um dos preços mais baixos já registrados. Então, vendeu-se muita soja, mas com pouco ganho, pouco rendimento, isso não é interessante. O interessante é que acabe logo essa guerra comercial e os mercados voltem ao normal.

Esse ano se acontecesse lá nos EUA uma safra de 25 a 30 milhões a mais de toneladas, e eles [os EUA] tinham potencial para isso, teríamos sérios problemas com esse grande estoque que estava se formando, se não fossem as perdas. O melhor é que o mercado se equilibre, para não chegar a ter muito grão estocado em algum país, como aconteceu com os EUA. Isso trás uma consequência grave até voltar ao normal. Acreditamos que é sim momento de parar com essa guerra comercial, para que os mercados voltem ao normal. A própria Bolsa de Chicago começou a reagir com esses anúncios sobre as compras dos chineses. Então, isso influencia em um melhor preço.

AFNews -  A Conab divulgou as estimativas finais da safra de grãos 2018/2019, com recorde de 242,1 milhão de toneladas, impulsionados principalmente pelo milho e algodão. A soja teve crescimento de 2,1% na área de plantio, em contrapartida reduziu 3,6% na produção, atingindo 115 milhões de toneladas. Mesmo assim, consolidou-se como a segunda maior produção de soja na série histórica da Conab. Quais regiões se destacaram e o que teria interferido para quebrar o  otimismo recorde da oleaginosa?

Aprosoja Brasil - A última safra (2018/2019) foi iniciada com grande otimismo, tendo em vista a antecipação das chuvas e diversas regiões, favorecendo o plantio da soja mais cedo. Entretanto, da segunda quinzena de dezembro ao fim de janeiro, diversas regiões, do sul ao nordeste, passaram por um veranico longo, de forma que interferiu bastante na capacidade produtiva da cultura da soja. Alguns produtores apresentaram maiores perdas em decorrência das condições relativas ao clima e ao solo, que une o veranico e a capacidade de retenção de água solo, além do plantio de cultivares precoces, no qual, apresentam maior suscetibilidade a perdas, pois os períodos de veranicos apareceram em estádio reprodutivo, impossibilitando o restabelecimento do seu potencial produtivo.

O Paraná foi o estado mais impactado, que apresentou perda percentual de 15%, que em volumes significa cerca de 3 milhões de toneladas. O Rio Grande do Sul foi o que apresentou maior ganho de produção, uma elevação de 12% na produção, que em volumes significa cerca de 2 milhões de toneladas, passando a ser o 2° maior estado produtor do país.

AFNews -  Segundo dados do Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais (Inpe), somente na região da Amazônia brasileira, cerca de 437 mil quilômetros quadrados de floresta tropical foram derrubados nos últimos 30 anos. Em parte dessa terra pastam os rebanhos de gado; em outra, cultiva-se a soja.  Qual o projeto de sustentabilidade da soja brasileira para conter o desmatamento das florestas?

Aprosoja Brasil - É importante considerar que a soja não é fator de desmatamento da Amazônia. Há  vinte anos a soja ocupa somente 1% da Amazônia, sem ampliação significativa de áreas de cultivo, isso ocorre por conta da nossa rigorosa legislação florestal, que estabelece a obrigatoriedade de se preservar cerca de 80% das áreas na qual são usadas para agricultura dentro da Amazônia, o que acaba tornando a atividade impraticável.

A Aprosoja Brasil vem defendendo e sempre será contra o desmatamento ilegal, de forma que temos que criar um ambiente sustentável ambientalmente, socialmente e economicamente, a fim de estabelecer uma boa relação entre o homem e a natureza.

AFNews -  Por que a soja é tão importante na pecuária intensiva?

Aprosoja Brasil - Em consórcios do tipo o sistema de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) ou Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF), a soja passa a ser um fator de agregação de valor ao uso da terra e ao desenvolvimento dos animais, tendo em vista que contribui para adicionar uma melhor renda ao produtor através da sua venda direta, além da capacidade de agir como um “adubo verde” para o cultivo das pastagens que consequentemente alimentarão os rebanhos.

 Isso ocorre porque a soja é uma planta que permite a fixação de nitrogênio através da inoculação de bactérias, que durante seu ciclo de desenvolvimento se torna autossuficiente em nitrogênio, através da retirada do elemento (nutriente) do ar atmosférico para imobilização em sua biomassa. Ao fim do seu ciclo, a cultura sendo decomposta passa a disponibilizar este importante nutriente (nitrogênio) para as pastagens, possibilitando a alta produção de biomassa e favorecendo o ganho de peso dos animais.

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