Ponto de Vista: embaixador da Abitrigo comenta sobre os entraves e desafios do setor triticultor brasileiro

  • 16/07/2019
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  • Categoria(s): Notícias Agrí­colas |

Boa parte da indústria processadora de trigo do Brasil é formada por grupos que estão há décadas no setor; 40% deles atuam há mais de meio século, mas isso não é, necessariamente, sinônimo de um parque fabril antiquado e arcaico que não possa atender um eventual aumento da demanda, muito pelo  contrário.

Desde 2010 é notável os constantes investimentos dos empresários, donos de moinhos, que estão se readequando às novas tecnologias do setor, acompanhando a evolução global, investindo em modernização das unidades para aumentar a competitividade e suprir as demandas de mercado.

E, como ponte nesta relação do setor triticultor com o mercado consumidor,  aparece uma entidade fortalecedora de vínculos, que vai desde o momento em que se planta o trigo, colhe, moe, processa até chegar à mesa do brasileiro na forma de produto. Para entender o “Ponto de Vista” de um setor tão abrangente, e ao mesmo tempo, absolutamente desafiador,  é que o portal AFNews convidou para uma entrevista exclusiva o presidente executivo da Associação Brasileira das Indústrias do Trigo (Abitrigo)Rubens Barbosa. Você, leitor, é nosso convidado  para expandir sua mente com informação e conhecimento sobre a triticultura brasileira.

AFNews - A Abitrigo faz o elo entre o campo e a indústria de transformação. Como é para a entidade ser o fio condutor de uma forte e necessária ligação entre os dois polos extremos, ao longo de sua existência?

Pres. Abitrigo - É um trabalho contínuo e intenso. Os objetivos são os mesmos. Aumentar a qualidade para atender um consumidor cada vez mais exigente. Existem inúmeros tipos de trigo e cada um deles se aplica a uma determinada finalidade industrial. Existe um trigo mais adequado para panificação, outro para biscoitos, outro para pizza. O agricultor planta variedades genéticas de trigo. O papel da Abitrigo é exatamente o de fazer a interlocução entre campo e indústria de produtos farináceos. Outros aspectos também entram nesta interlocução como rendimentos de produção de farinha, sanidade dos produtos atendendo a padrões legais, logística de grãos e todos os demais aspectos que, afetando o custo dos grãos vão afetar a relação com o mercado consumidor.

AFNews - Em 2018, a Abitrigo promoveu vários debates com as diferentes representantes da cadeia produtiva para elaborar, pela primeira vez, uma proposta de Política Nacional do Trigo. Qual foi o resultado prático disso? 

Pres. Abitrigo - O resultado foi a elaboração de uma Política Nacional do Trigo (PNT) para exame do governo. O documento foi apresentado ao MAPA e ao Ministério da Economia. A Abitrigo está fazendo o acompanhamento em contatos regulares com esses ministérios. Participaram e foram ouvidos representantes de todos os elos da cadeia produtiva do trigo e, pela primeira vez, consolidamos os principais entraves e demandas do segmento em um documento que nos permitiu demonstrar ao governo o verdadeiro destaque que o trigo e seus derivados tem no agronegócio brasileiro. Paramos de ficar na conversa e reclamar ao governo e colocamos no papel uma proposta de pauta na intenção de direcionar as ações prioritárias. Muitas das propostas apresentadas na PNT são comuns para outras atividades no agronegócio e, dessa forma, consolidam demandas, que um setor tão importante necessita, para ampliar sua competitividade.

AFNews - Sob o 'Ponto de Vista' da Abitrigo, qual é o principal entrave para o crescimento do setor? 

Pres. Abitrigo - O crescimento da produção nacional e sua diversificação tem relação com o desenvolvimento de cultivares adaptadas a diferentes regiões climáticas do Brasil e resistentes a condições inóspitas que permitem proliferação de fungos, onde destacamos a Brusone, que afeta a produção no cerrado e ampliação de novas fronteiras agrícolas, e a Giberela que afeta as tradicionais regiões produtoras do Sul. O fator climático também tem de ser levado em conta. As recentes geadas no Paraná afetaram a safra de trigo, que deverá ser reduzida. Outro aspecto muito importante é que a qualidade dos produtos dos moinhos depende, fundamentalmente, da definição de sementes a serem utilizadas no campo, sendo que estas devem estar em alinhamento com as necessidades do mercado, e que as colheitas sejam criteriosamente segregadas para a manutenção das características qualitativas. Este processo está em evolução no Brasil, mas existe um grande desafio pela frente. 

AFNews - O documento formulado está baseado em quais eixos estratégicos?

Pres. Abitrigo - A Política Nacional do Trigo foca nos temas de qualidade e rentabilidade, e está baseada em seis eixos com 36 propostas: AMBIENTE LEGAL, PRODUÇÃO, INCENTIVOS FISCAIS, AMBIENTE DE NEGÓCIOS, COMÉRCIO INTERNACIONAL, LOGÍSTICA E INFRAESTRUTURA.

AFNews - O trigo é o único grão em que a produção nacional não é suficiente para o abastecimento doméstico, por quê? 

Pres. Abitrigo - O trigo é uma cultura de inverno e não tem estímulo para o crescimento pela concentração da produção, falta de investimento, custos de produção e impacto fitossanitário decorrente de situações climáticas desfavoráveis em momentos importantes na produção. O aspecto climático afeta sensivelmente o sucesso desta cultura, que tem desempenho mais favorável em países que sofrem menos pelo aspecto de chuva na colheita (Ex.: Argentina ao Sul da AL). O trigo originalmente é uma semente, cuja natureza genética é gerar uma nova planta. Em certas condições de umidade e temperatura, começa a germinar (14,5% de umidade e 28 graus Celsius). Este processo de germinação compromete a qualidade da farinha e sua aplicabilidade pela indústria. É muito frequente a ocorrência de chuva na época da colheita e a umidade do grão facilmente supera os 14,5%. Para reduzir este impacto, o desenvolvimento genético de sementes mais resistentes é fundamental.

AFNews - Qual a 'fórmula' defendida pela Abitrigo para estimular a competição interna e aumentar a exportação do produto para o mercado internacional? 

Pres. Abitrigo - A efetivação de uma Política Nacional do Trigo que propicie a diversificação das áreas de plantio, controle de pragas e apresente oportunidade para investimento que possibilite ampliar a produção em áreas novas, como o norte do cerrado. De forma indireta, o Brasil deveria exportar produtos acabados à base de farinhas, como biscoitos e massas, e para isto é necessário o desenvolvimento contínuo desta indústria.

AFNews -  Sobre o clima, para a safra deste ano, o cenário para algumas regiões é pouco promissor. Qual a avaliação mercadológica da entidade quando esbarra no fator climático?

Pres. Abitrigo - Paraná e Rio Grande do Sul, as duas principais áreas de produção do trigo, devem manter o volume produzido em 2018. O fator climático também é um agente que aconselha a diversificação das áreas plantadas. Temos que aguardar mais um pouco para avaliar os possíveis impactos negativos de um clima desfavorável, mas, para nós da indústria, a qualidade da safra tem papel fundamental no mercado.

AFNews - Do 'Ponto de Vista' da Abitrigo o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia é satisfatório para o Brasil, no que se refere à convergência regulatória e competitividade do trigo?

Pres. Abitrigo - Não há referência direta ao trigo no acordo Mercosul-UE. Não há exportação europeia para o Mercosul. O efeito é indireto na medida em que exista ou não impacto do aumento das exportações de alimentos da UE para o mercado brasileiro. A indústria fornece a farinha para a produção de massas, pães e bolos. Os hábitos de consumo domésticos nesses produtos são estáveis e levarão algum tempo para serem alterados.

AFNews -  Até onde a atual conjuntura do trigo no Brasil esbarra na valorização do produto lá fora?

Pres. Abitrigo - O preço do trigo no mercado interno depende das cotações internacionais, do fornecimento argentino e das variações do câmbio. A valorização do produto no exterior causou até o momento pouco impacto no produto final, apesar da alta do preço para a indústria moageira.

AFNews - Qual é o 'Raio X' a ser feito sobre a estagnação do trigo brasileiro? 

Pres. Abitrigo - O consumo interno tem se mantido estável e os problemas mencionados acima mantém a produção estagnada. Qualquer país no mundo tem hábitos primários de consumo de carboidratos que são os responsáveis pela base energética de uma população. Existem países –  como, por exemplo, os árabes ou até mesmo a Itália -, em que a base energética predominante é o trigo, o que atribui alto consumo per capta. No Brasil, favorecido pela grande oferta de fontes energéticas, o trigo possui fortes concorrentes como o arroz, feijão, milho e batata. Em especial o arroz e o feijão, que estão associados a hábitos culturais extremamente arraigados em nossa população. O desenvolvimento da cadeia do trigo, com ofertas cada vez mais elaboradas de pães, massas e biscoitos, certamente a custos competitivos e suportáveis pela população, ou seja, produtos de consumo de massa e não desenvolvidos para nichos, poderiam promover mudanças no cenário de consumo de trigo.

AFNews - Temas como: exportação da agricultura brasileira, a regulamentação da rotulagem, o uso de defensivos agrícolas, o tabelamento do frete e o impacto do cenário político na cadeia produtiva e na economia do país são recorrentes em mesas redondas e debates da entidade. O quanto já se avançou sobre cada um deles cada vez que a bandeira em defesa destes temas é levantada?

Pres. Abitrigo - Todos são temas delicados que estão avançando gradualmente. Com a aprovação das reformas e a eventual volta do crescimento e do emprego, a tendência é que essas questões possam ser encaminhadas de maneira satisfatória. A Abitrigo está sempre presente nas discussões com toda a cadeia, produtores, exportadores, fabricantes de produtos farináceos, governo e sociedade com o intuito de promover o desenvolvimento da cadeia de forma sustentável no mercado brasileiro.

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